Pastinha - Mártir da capoeira

Vicente Ferreira Pastinha deu a vida pela capoeira angola mas não foi reconhecido no Brasil

 

Um sábio tão genial não deveria ter acabado daquele jeito. Mas o fim trágico de Vicente Ferreira Pastinha, o mestre Pastinha, revela de que forma o Brasil trata a sua memória. Não era um homem das letras, é verdade, mas foi uma espécie de guardião de uma cultura ancestral. A capoeira angola, que defendeu com uma abnegação religiosa, era o seu principal cabedal. Por ela, divulgou o Brasil na África, ganhou fama e espaço em jornais. Contudo, como um mártir incógnito de negros escravos como sua mãe, morreu doente, cego e na miséria, sem ver o seu tra

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balho reconhecido no país.

Época de ouro

Exaltado por Jorge Amado e Caetano Veloso, Pastinha tem período áureo e chega ao ápice em viagem à África

Posaram para foto nas escadas do avião. À frente, um senhor elegante, satisfeito e sorridente. Nos degraus seguintes, logo abaixo, um time respeitável de nomes excêntricos: José Gato, João Grande, Camafeu de Oxóssi, Gildo Alfinete e Roberto Satanás. Reunido às pressas, o grupo partiria para a mais

http://www.correiodabahia.com.br/recursos/news/imgs/%7B1E95A3C8-7882-4A74-B0B4-2A2EB26114EA%7D_repo4.jpgimportante empreitada da história da capoeira. Completaram a delegação de artistas e intelectuais brasileiros em viagem inédita à África. Desfalcado de João Pequeno, o conjunto regido por Pastinha representaria a Bahia em evento de afirmação da negritude. O outro lado do oceano estava em festa.

Na capital do Senegal, Dakar, realizava-se o 1º Festival Mundial de Arte Negra. O ano é 1966 e os africanos conheceram a capoeira do Brasil na sua época de ouro. Ao carimbar seu primeiro passaporte, Pastinha tornaria realidade desejo antigo. Tinha vontade de mostrar para descendentes dos seus ancestrais o que havia feito de sua cultura. Sensação semelhante a que viveu o ousado Ruy Barbosa ao pendurar tabuleta com os dizeres “dá-se aula de inglês”, em plena Londres. “Eles gostaram do que viram. Fizemos uma apresentação de gala”, assegura um dos membros da comissão, Gildo Alfinete. Era capoeira afro-brasileira para africano ver.

 

O feito ganhou os jornais, virou música escrita pelo próprio Pastinha, entoada nas rodas de capoeira, gravada na voz de Caetano Veloso: “Pastinha já foi à África, pra mostrar capoeira do Brasil”, cantou Caetano, em Triste Bahia, como que lamentando a passagem de um período que não mais poderia voltar. Antes, Pastinha e sua trupe já haviam levado a arte da capoeira para Belo Horizonte, Porto Alegre e Rio de Janeiro. Colocaram 40 mil pessoas no ginásio Maracananzinho. “Os capoeiristas do centro angola se exibiram no Aeroporto Santos Dumont. Pastinha, com seus 60 anos, lidera os bambas da capoeira...”, noticiou o Diário Carioca, de 10 de abril de 1959.

 

Era o apogeu, tempos áureos para mestre Pastinha e sua academia, transformada em passagem obrigatória para turistas que visitavam a Salvador dos anos 60. Desprendido, sem amontoar bens materiais, Pastinha tinha fama de artista, era intelectual do povo, célebre “vadio”. Sem nenhum tipo de formação acadêmica, transitou entre intelectuais, jornalistas e políticos da época. Impunha respeito em qualquer meio. “Trouxe para a capoeira referências de fora. Se comunicava com o mundo exterior. Apesar de ortodoxo na estética, não se fechava no seu mundo”, analisa o pesquisador Frede Abreu.   

 

Alimento cultural

 

A admiração era recíproca. A intelectualidade também ia se “alimentar culturalmente” no Centro Esportivo de Capoeira Angola. Carybé, artista plástico, chegou a planejar edição de livro ilustrado com Pastinha. Camafeu de Oxóssi, boêmio, conhecido angoleiro, dos melhores mestres de canto da Bahia. Wilson Lins, o deputado, apoiava politicamente as atribuições do mestre. Pierre Verger, o francês radicado na Bahia, fascinado pelo jogo. “Ele fez da capoeira algo decente”, elogiava Verger. Nada seria comparável, porém, à declarada afeição por Jorge Amado. Superaram os limites da boa convivência e construíram amizade sincera.   

 

O escritor cita Pastinha em pelo menos quatro de suas publicações. Em Navegação de cabotagem, o coloca em pé de igualdade com alguns dos maiores gênios de todo o mundo, os quais conhecia pessoalmente:  “Privei com alguns dos mestres, dos verdadeiros, do universo da ciência, das letras, das artes. Picasso, Sartre, Joliot, meu privilégio foi tê-los conhecido. Não menor o apanágio de ter merecido a amizade dos criadores da cultura popular da Bahia(...), de acompanhar Pastinha até a última roda de capoeira angola”. Depois, em Bahia Boa Terra Bahia, parceria com Flávio Dan, volta a aclamá-lo, dessa vez em prosa quase lírica:   

 

“De repente um salto, uma volta sobre si mesmo, o pé solto no ar, o corpo leve, um passo de balé, cadê o adversário? Quem teve a aventura de ver mestre Pastinha na roda da capoeira, quem assistiu ao maravilhoso espetáculo de sua luta, quem o viu diante dos berimbaus a comandar seus alunos, teve o privilégio de conhecer o capoeirista perfeito, o primeiro, sem segundo”. Pastinha e Jorge Amado conversavam por horas e horas, nas janelas dos casarões do Pelourinho ou na casa do escritor, no Rio Vermelho. Zélia Gattai chegou a registrar em fotografia alguns desses encontros.

 

As primeiras críticas não demoraram a aparecer. O reconhecimento dos brancos faz outros mestres angola torcerem o nariz para Pastinha. Waldemar, Cobrinha Verde, Canjiquinha e Caiçara afirmam não concordar com seus métodos, queriam a capoeira dos guetos. Pastinha responde à altura. “Com franqueza, é tempo de zelar pelo esporte”. Os demais tiveram que se adequar à sua didática. Ainda hoje os grupos de capoeira angola, sem exceção, seguem o seu modelo. “A forma de educação criada por Pastinha foi baseada em princípios éticos, estéticos, filosóficos e humanos aplicados de forma muito profunda. Tudo que tem profundidade permanece por muito tempo”, julga o educador Pedro Abib.

 

Pastinha teve estudo deficiente, cursou apenas alfabetização, mas compensava com a sabedoria. A própria postura era de intelectual. “Um gentleman, homem fino”, atesta Gildo Alfinete. Poderia discutir sobre qualquer assunto, com qualquer um que o interpelasse. Estudiosos do mais alto gabarito iam à sua procura. Outros, chama a atenção Ângelo Decânio, realizavam trabalhos irresponsáveis servindo-se do seu nome. “Pastinha foi utilizado por muita gente inescrupulosa como alavanca social. Isso desgastava o mestre, que era desprovido de ambições políticas”.

 

O folclorista Waldeloir Rego faria diferente. Realizou ensaio socio-etnográfico completo sobre a capoeira angola e suas origens. Em alguns momentos, Waldeloir discorre longamente sobre sua inteligência, mas também sobre suas qualidades como capoeirista. Para tanto, recorre a citação de Jorge Amado: “Mestre Pastinha tem mais de 70 anos. É um mulato pequeno de assombrosa agilidade, de resistência incomum. Quando ele começa a brincar, a impressão dos assistentes é que aquele pobre velho, carapinha branca, cairá em dois minutos, derrubado pelo jovem adversário ou pela falta de fôlego. Ledo e cego engano. Os adversários sucedem-se, e ele os vence a todos”.

 

Segredos do berimbau

 

A música de Pastinha também seria motivo de estudos, dessa vez através da etno-musicóloga Emília Biancardi. Em 1962, a pesquisadora visitou Pastinha com comissão inteira de alunos do projeto Viva Bahia, primeiro grupo de estudos folclóricos do estado. “Queria que meus alunos aprendessem os segredos do berimbau, a musicalidade da capoeira”.  O mestre ensinou com gosto, mas foi além. “Logo nas primeiras aulas já estava na roda, ensinando capoeira”, revela. Não atrapalharia a pesquisa direcionada à música. Emília Biancardi chegou à conclusão de que Pastinha também era excelente compositor de ladainhas e tocador de berimbau, ao contrário do que diziam alguns.

 

“Tocava de forma tradicional, sem floreios. Não era um virtuoso como Canjiquinha ou Waldemar. Seu berimbau era intimista e sentimental”, define a etno-musicóloga. Era a forma de adequar o som do instrumento ao jogo. Ambos deveriam estar em perfeita consonância. “Capoeira e música eram indissociáveis para Pastinha. Um era o corpo, o outro o espírito”. Ingênuo, também não era capaz de dissociar a camaradagem dos negócios. Não cobrava nada por sábias informações ou pela própria imagem, em fotografias. “Houve quem chupasse a laranja e deixasse o bagaço”, acusa Emília Biancardi. Solícito, o mestre atendia a todos, posava sem saber que era explorado, como nas escadas do avião, satisfeito e sorridente.

 

Filósofo da capoeira

 

Como um pensador da cultura popular, Pastinha deixa seus ensinamentos em forma de manuscritos, desenhos, pinturas e até um livro-manual

A caligrafia simples, perfeitamente legível, é de um sábio envolto em pensamentos intrigantes. Mais do que meros sinais gráficos ou vocábulos de uma língua, são amálgama de conceitos, revelam a http://www.correiodabahia.com.br/recursos/news/imgs/%7BAFCCAB50-BF17-4428-9FBF-02C216C0AB0B%7D_repo5.jpgcomplexidade da filosofia popular. Pastinha não foi doutor, acadêmico ou versado em letras, mas era portador de curiosa erudição. Mergulhou no próprio mundo com tal lucidez que transformou-lhe em palavras. “Angola capoeira-mãe, mandinga de escravo em ânsia de liberdade. Seu princípio não tem método, seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista”.

 

Em folhas avulsas ou no seu caderno ilustrado, de capa dura, carinhosamente apelidado de “caderno albo”, elaborou ensinamentos retos, mas também noções abstratas. O título do próprio caderno sugere conteúdo além do palpável: “Quando as Pernas Fazem Miserê – A Metafísica da Capoeira”. “Ele foi o primeiro a conseguir verbalizar a capoeira na sua subjetividade”, examina Pedro Moraes Trindade, o mestre Moraes, mais um dos seus discípulos. Pastinha não conhecia a filosofia cartesiana, mas sobre papel pautado elaborou código de ética sólido. “Conseguiu fazer isso com o sentimento, exatamente como acontece com os zens budistas”, compara Moraes.

 

Fez verdadeiro contorcionismo intelectual para mostrar vertente filosófica e sociológica da capoeira. Através de metáforas, criou princípios de conduta. Em alguns casos, utilizou estrofes, versos simples, acompanhados de desenhos e ilustrações. “Eu não sou folha de flandre, nem prato esmaltado, não vou jogar com você porque é mal-educado”. “Se expressava com poesia. Era também poeta”, exalta Frede Abreu. As rimas, quase todas transformadas em ladainhas, não necessariamente deveriam ser carregadas de apelo moral. Poderiam demonstrar apenas seu amor pela capoeira. “Eu nasci no sábado, no domingo eu me criei, na segunda-feira, capoeira eu joguei”.

 

A enorme capacidade de reflexão o fez discorrer longamente sobre assuntos diversos, em alguns casos com conteúdo ainda indecifrável. O próprio Ângelo Decânio Filho, considerado maior conhecedor da obra escrita do mestre, admite a necessidade de um estudo mais profundo. Foi ele o idealizador do livro A herança de Pastinha, no qual transcreve boa parte dos seus escritos e faz alguns comentários. “Ainda há verdadeiros hieroglifos a serem desvendados ali”, assegura. Do que conseguiu extrair, Decânio sintetiza em poucas palavras. “Cidadania, fé e patriotismo. São o tripé filosófico dos seus manuscritos”.

 

Pastinha escreveu sobre a necessidade de lutar pela nação, criticou a postura omissa dos políticos, reconheceu sua própria pequenez diante da grandiosidade de Deus. “Ê maior é Deus, maior é Deus, pequeno sou eu”. Não se considerava católico, nem do candomblé, mas tinha discurso carregado de religiosidade, quase messiânico. “A capoeira entre as lutas é a mais amável. Deus designou que fosse pura e bela. Devemos esquecer os hábitos duvidosos. Temos que aprender a guardar bem as entradas de Satanás”.   

 

História viva

 

As páginas dos manuscritos são também uma espécie de diário, a história viva do Centro Esportivo de Capoeira Angola e da saga dos angoleiros na Bahia. Pastinha fala de um início difícil e de conflitos políticos que por pouco não condenaram a capoeira tradicional à extinção. Detalha as intrigas internas que tinha que administrar. Trata das mortes de Amorzinho e Aberrê, que fizeram-no hesitar na continuidade do ousado projeto, até a festejada inauguração do centro, em 1949. “As primeiras camisas foram feitas no Bigode (Brotas), em cores preto e amarelo”, relata Pastinha.

 

Alguns dos amigos e discípulos ficaram com a herança filosófica de Pastinha, quando da sua morte. A coletânea de manuscritos avulsos foram parar nas mãos do artista plástico Carybé, posteriormente doados a Decânio. O “caderno albo” pertenceu ao deputado Wilson Lins. “Impressionante como ambos continuam atuais. Os escritos de mestre Pastinha são uma prova de que os saberes populares não podem ser considerados menos importantes que os saberes científicos”, opina o educador Pedro Abib. Ainda há outros documentos escritos à mão pelo mestre. No seu acervo, Gildo Alfinete guarda, além de manuscritos, uma enorme lona com caligrafia de Pastinha, a qual era estendida na academia.

De próprio punho, o mestre também fez pinturas em tela. Nos quadros, assim como nos desenhos, utilizou a capoeira para expressar seu tino pelas artes plásticas. O único trabalho que deixou devidamente editado foi um livreto intitulado Capoeira Angola, com publicação em 1964. Dedica os primeiros capítulos à ética e à formação moral do capoeirista. Depois, surpreendentemente, transforma o livro em verdadeiro manual de golpes. Através de fotografias, demonstra cada um dos mecanismos de ataque e defesa da capoeira. Antes, porém, faz uma ressalva. “Não tive a pretensão de descrever a capoeira em suas minúcias, nem fazer capoeiritas com a simples leitura”.

 

Sementes de Pastinha

 

O mestre sabia que capoeira se aprende jogando, e com o estudo da sua filosofia. Exatamente como fazem alguns dos seus discípulos, a maior herança filosófica de Pastinha. “Os meus discípulos zelam por mim. Os olhos deles são os meus”.  Aos 86 anos, João Pequeno parece impregnado dos seus preceitos. A ponto de ter sido agraciado com o nome do mestre: “João Pequeno de Pastinha”. Pequeno forma dupla de guardiões da capoeira angola com João Grande, do qual Pastinha ficaria orgulhoso se estivesse vivo. Grande alçou vôo alto, aos 76 anos, mora em Nova York, nos Estados Unidos, onde cobra US$15 por hora-aula aos seus mais de 100 alunos.

 

Saiu da lavoura, em Itagi, para ser premiado Doutor Honoris Causa pela Universidade Upsala College, de Nova Jersey. Não deixa o hábito de mascar cravos e usar a peculiar boina. “Quanto aos discípulos, ele acertou em cheio. João Pequeno e João Grande levaram pra frente o seu projeto de vida. São, de fato, os caras que amam a capoeira, as sementes de Pastinha”, aposta Frede Abreu. “A cultura popular é dinâmica. Mas existem muitos sinais da tradição ainda presentes nas formas de transmissão daqueles saberes, que os dois joões mantêm nas suas escolas”, complementa Pedro Abib.

 

Aqueles saberes iam da mais pura sabedoria popular às mais complexas e abstratas noções. “Qual o golpe mais importante da capoeira?”, perguntou uma jornalista. Era a deixa para resposta irônica. “A carreira. Se não pode enfrentar o adversário, corra”. Curiosa versatilidade de idéias. Escrevia muito e falava pouco, mas quando se fazia ouvir a voz mansa e arrastada, disparava pérolas. “Você tem uma boca e duas orelhas. É pra ouvir mais e falar menos”. Bebia na cultura popular para brincar com as palavras. Assim deixou sua herança. “O grande filósofo da capoeira. Não teve outro, não tem, nem vai ter”, profetiza Frede Abreu.

 

Mestre sacerdote

 

Inteligência diferenciada e dedicação religiosa à capoeiragem elevam mestre Pastinha à condição de maior símbolo da prática angoleira.

-Tem jeito não, Pastinha... É você mesmo que vai tomar conta disso aqui...

As palavras de Totonho de Maré soaram como um decreto. Reforçaram o insistente convite de mestre

http://www.correiodabahia.com.br/recursos/news/imgs/%7B29A8A61A-1699-4959-A37A-EB6BA763C38E%7D_repo2.jpgAmorzinho, dono da capoeiragem, o qual cumprimentou Pastinha com forte aperto de mão, seguido da surpreendente proposta.
- Há muito que eu esperava para lhe entregar essa capoeira para o senhor mestrar...

 

Sabiam de sua inteligência. Eram mestres da antiga Gengibirra, ponto de encontro dos maiores capoeiristas de Salvador nas primeiras décadas do século passado. Amorzinho, Maré, Noronha, Aberrê, Livino e tantos outros reconheceram à sua frente não apenas um transmissor de ensinamentos práticos, mas um homem de avançada sabedoria, capaz de conduzir os destinos da capoeira angola, tirando-a da marginalidade. “Eles viram em Pastinha um sujeito de visão. Por isso entregaram a ele a missão de reerguer uma prática que andava esquecida”, explica o pesquisador Frede Abreu, idealizador do Instituto Jair Moura, o maior acervo de capoeira do mundo.

 

Como um sacerdote, Vicente Ferreira Pastinha doou-se com abnegação religiosa à incumbência que lhe foi conferida, a ponto de sacrificar a própria vida pela sua obra. Chamado à Galanteria da Capoeira, conforme nomeou Maré, se transformaria num ícone para as futuras gerações, o exemplo a ser seguido. Transmitiu o dom sagrado aos seus alunos e proferiu aos quatro cantos a filosofia dos seus ancestrais. Não seria apenas o responsável por manter de forma ortodoxa a estética lúdica angoleira. Iria além. Ao levar para o dia-a-dia os truques e artimanhas da roda, faria da própria vida um eterno embate de capoeira. Pastinha era impregnado da astúcia que compunha o sistema simbólico do jogo.

 

A própria fala, com voz arrastada, denunciava entremeado de idéias carregado de simulações e metáforas. “Capoeira é mandinga, é manha, é malícia. É tudo que a boca come...”, definiu. “Respirava capoeira. Com ele não tinha duas conversas”, confirma Manuel Silva, o mestre Boca Rica, 70 anos, um dos seus mais antigos discípulos. Pastinha não queria fazer da prática simples arte marcial. Utilizou a luta como forma de apreensão da realidade. Fez-se filósofo. “Ninguém pode mostrar tudo que tem. As entregas e revelações devem ser feitas aos poucos. Isso serve na capoeira, na família, na vida”, ensina, em um dos inúmeros manuscritos que deixou como herança.

 

Durante as quatro décadas que esteve à frente do Centro Esportivo de Capoeira Angola (Ceca), academia que funcionou por 18 anos no Largo do Pelourinho, número 19, Pastinha procedeu como autêntico “velho mestre”. O termo refere-se aos fundadores da tradição afro-baiana de praticar capoeira, a exemplo dos que se reuniam na Gengibirra, no bairro da Liberdade. “Naquele tempo para ser mestre na arte da capoeira tinha que ser artista na vida”, escreve Frede Abreu em um dos seus artigos. Pastinha não só seguiria esse preceito à risca como o tornou patente para os seus seguidores.

 

Sem negar as tradições, criou nova forma de ensino. Adaptou à sua pedagogia características de esporte. Lhe deu, literalmente, nova roupagem. Seus alunos usavam uma espécie de “hábito” com as cores amarela e preta, em homenagem ao clube do coração, o Ypiranga. Deveriam estar com as vestimentas impecáveis. Pastinha não tolerava o desleixo. “O jogo precisa ser jogado sem sujar a roupa, sem tocar o corpo no chão”, aconselhava. Assim instituiu verdadeiros dogmas, criou preceitos, pregou obediência quase cega às regras. Era a resposta à capoeira regional, criada por mestre Bimba.

 

A gênese de eterna rivalidade se deu quando Pastinha tornou os angoleiros reconhecidos, assim como Bimba fez com os regionais. “Regional e angola, cisões na capoeira, problema de difícil solução. Melhor gingar, passar pra outro parágrafo...”, ironizou o antropólogo Antônio Liberac, no livro Bimba, Pastinha e Besouro de Mangangá, que desvenda a vida dos três maiores nomes da capoeira na Bahia. O terceiro capítulo dedicado a Pastinha revela a trajetória de um homem que mudou os rumos da capoeira angola, tendo rompido com os capoeiristas desordeiros que aterrorizavam a antiga Salvador.

 

Sua academia ganhou notoriedade, virou centro de grande reputação. Passou a ser freqüentada por intelectuais, políticos e artistas. A fama não o fez acumular riquezas, nem representaram a quebra com os antigos valores. Ao contrário, as rodas organizadas por Pastinha se mantiveram como um ritual, quase como um culto. “Era um místico. Vivia a capoeira com intensidade e realizava a sua própria interpretação daquele universo”, observa o artista plástico Mário Cravo, visitante assíduo.

 

Homem bom, afetuoso, civilizado, como testemunhou em vários depoimentos o escritor e amigo Jorge Amado. “Mestre Pastinha, mestre da capoeira de angola e da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do povo com toda sua picardia, é um dos seus ilustres...”, escreveu, em Bahia de Todos os Santos. O próprio mestre não recomendava outro tipo de comportamento para os seus discípulos. “Pratico a verdadeira capoeira de angola e aqui os homens aprendem a ser leais e justos...”.

 

Nada o faria abandonar, porém, a origem maliciosa. Pastinha reconhecia na capoeira feição perversa. “O que serve para a defesa também serve para o ataque”. Cresceu com a malandragem das ruas. “Era o seu espaço desde criança. Impossível não assimilar o mundo cheio de malícia”, diz a historiadora Adriana Albert Dias. Tal convivência o teria levado, em 1902, para a Marinha, destino de boa parte dos adolescentes da época. “Foi parar nas Forças Armadas para entrar no eixo”, acredita Adriana. Aos 12 anos, ensinava capoeira para os colegas, na Escola de Aprendizes de Marinheiro. 

 

Nasceu em 5 de abril de 1889. Filho de um espanhol, José Senor Pastinha, e da negra Raimunda dos Santos, viveu na Rua do Tijolo, no Centro Histórico, atual 28 de Setembro. Além de pintor de paredes, Pastinha trabalhou também no jogo do bicho, foi leão-de-chácara, contravenção prevista no Código Penal à época. Aprendeu capoeira para livrar-se de um rival, mais velho e mais taludo. “Entrávamos em luta e eu sempre levava a pior”. Um escravo octogenário, o negro Benedito, assistia tudo a distância. Certo dia, o chamou para dentro do seu “canzuá”, na Rua das Laranjeiras.

 

“Ocê não pode brigar com aquele menino, aquele menino é mais ativo que ocê, aquele menino é malandro. O tempo que você perde empinando raia vem aqui que eu vou te ensinar capoeira”, incitou. A partir dali não deixaria mais de lutar, nem quando a polícia importunava as rodas no meio da rua, conforme descreve antiga matéria do jornal A Tarde. “Nos tempos de jovem, em que a mocidade freqüentava o famoso Campo da Pólvora, Vicente Pastinha fechou o tempo muitas vezes, pondo por terra vários policiais de uma só vez”. Era a prova de que se tratava também de exímio capoeirista, apesar da estatura diminuta: 1,56m.

 

“Dos antigos, não tinha nenhum pra pular na frente dele”, garante mestre João Pequeno, 89 anos, seu mais velho discípulo. “Na hora da precisão fazia miserê com as pernas”, relata mestre João Grande, 76 anos, que junto com Pequeno leva à frente seus ensinamentos. O próprio Pastinha desafiava. “Ninguém ainda me botou no chão e nem ainda vai botar”. Salteou os adversários mas não conseguiu contragolpear os dois derrames cerebrais, acompanhados da cegueira. Em 1966, na histórica viagem à África, daria seu último suspiro glorioso. Mostrou a capoeira do Brasil para os africanos.  

 

Sem enxergar, conheceu a escuridão do abandono. Além de Jorge Amado e da terceira esposa, Maria Romélia, poucos o ajudaram no final da vida. Sem filhos, traído pelo governo, terminou no isolamento, na penumbra de quarto úmido, num casario do Pelourinho. Nem de longe era aquele Pastinha que, em 1941, adentrou a Galanteria da Capoeira e assumiu o disputado clã. Ali, à frente de Amorzinho, Maré, Noronha, Livino e outros tantos, comprometeu-se em passar adiante o que havia herdado dos escravos. Conta-se que, ao longo de 92 anos de vida, formou mais de dez mil alunos. Cumpriu rigorosamente a missão de mestre sacerdote.

 

Tateando no escuro

 

Pastinha ficou cego e teve o mesmo final trágico da maioria dos ‘velhos mestres’

Esquivou-se com peculiar malícia, como que tentando livrar-se de golpe mortal. Foi em vão. Em toda a sua trajetória seria o único ataque a que não teria defesa. Acertou-o em cheio.
- Pastinha, que é que tá sentindo?
A resposta ao questionamento de dona Romélia, a terceira esposa, guardaria certo desdém, misto de resignação e sarcasmo.
- Nada, absolutamente nada... Tô bem, graças a Deus...
Definitivamente não estava. Vivia em quarto escuro, sujo, sombrio. Enxergava apenas o negrume. Duro golpe de deslealdade havia lhe deixado cego. É verdade que dois derrames cerebrais subtraíram sua visão, talvez resultado das baforadas de cigarro, companheiro inseparável. Mas nada perturbaria tanto seus sentidos que a traiçoeira infidelidade, tão devastadora quanto o “furo nos olhos”. Sem maiores explicações, em 1973, tiraram-lhe seu maior bem, o Centro Esportivo de Capoeira Angola.

 

Seria “despejo” temporário, uma simples reforma nas dependências do velho casarão. Como a própria cegueira, porém, foi definitiva. A academia se transformaria em restaurante, o Senac, no Largo do Pelourinho. O espaço não alimentaria culturalmente baianos e turistas, como fazia o centro de Pastinha. O mestre havia perdido sua maior fonte de renda. Segundo jornais da época, sequer recebeu indenização e alguns dos pertences que deixou no local teriam sido extraviados. “Quadros pintados por ele, livros, registros da academia, cartas, bandeiras, móveis em jacarandá, desapareceram apesar de ter ficado sob a guarda dos responsáveis pela desapropriação”, escreveu A República.

 

“A saída do Pelourinho foi trágica. Nos enganaram. Disseram que seria por uns dias”, testemunha Jaime Martins dos Santos, o mestre Curió, em depoimento no documentário Pastinha: uma vida pela capoeira, de Antônio Muricy. A transferência para cortiço pequeno e sem estrutura, na Ladeira do Ferrão, também conhecida como Ladeira do Mijo, era o princípio do declínio. Pastinha não havia acumulado capital para superar a crise. Já empobrecido, ficou em estado de penúria. Durante certo tempo ocultaria a mágoa. Depois, quebraria o silêncio. “Nada vejo. Nada, absolutamente nada. Trevas, trevas. Estou na miséria”, revelou.

 

Revolta e amargura

 

Matéria histórica do jornal A Tarde, em 5 de junho de 1980, trouxe título lacônico: “O desabafo do mestre”. Perguntado sobre as condições em que se encontrava a capoeira baiana à época, responderia em tom de revolta e amargura. “A capoeira de nada precisa. Quem precisa sou eu”. De fato, a prática havia ganho status e reconhecimento. Justamente os “velhos mestres”, que haviam lhe dado condições de crescer, não colheram seus frutos. “A capoeira baiana em alta no mercado, enquanto os mantenedores de sua tradição, como eu mesmo, morrendo em estado de severa pobreza”.

 

Como espécie de maldição, Pastinha teve o mesmo fim de Amorzinho, Aberrê, Waldemar, Cobrinha Verde e do regional mestre Bimba. Como eles, também seria ridicularizado por alguns dos próprios alunos. “Na viagem à África seu Pastinha já não enxergava bem. João grande disse que José Gato e os outros comiam o peixe do prato dele e deixavam só as espinhas”, delata mestre João Pequeno, em tom de lamentação. Pela imprensa, teve a sua condição de mestre questionada. Foi diminuído a tomador de conta de roda: “Pastinha é uma invenção da mídia”. “Pastinha, bom ou mau capoeirista?”. Mesmo doente, responde aos ataques: “Despeitados: Quem pode dizer que não sou mestre. Sou mestre com a permissão dos antigos”.

 

Provaria isso cego. “Sem enxergar, jogava no tato”, testemunha o mestre Boca Rica. Em visita a Salvador, o jornalista Roberto Freire se surpreenderia com aquele velhote, que em vez de bengala branca usava a intuição para continuar superando adversários. “Ele lutava cego. Os alunos mantinham distância e pensei que fosse respeito. Até que um deles me disse: ‘Se a gente chegar mais perto, leva’”, narra Freire. Participaria de rodas de capoeira até quando suportasse. Impossibilitado de andar, recolheria-se aos precários aposentos, pondo-se apenas a pensar como um rabino. 

 

Sábio, até o final dos seus dias, Pastinha filosofou sobre a particular decadência. Desenvolveu reflexão sobre o próprio infortúnio. Em matéria do jornal A Tarde, com subtítulo “Tateando no Escuro”, o mestre tenta explicar a tragédia em que havia se enterrado. “Engraçada a vida. A fama chegou para mim (...) No princípio sentia uma vaidade e pensava: formidável, todos falam de mim, um mulatinho filho de escravo. Terrível é descobrir que tudo isso é falso. A única coisa real foi a capoeira”,

 

Ajuda de custo

 

Mas Pastinha sabia que poderia contar com alguns dos seus. O escritor Jorge Amado interveio junto ao então governador Antonio Carlos Magalhães para que o mestre recebesse ajuda de custo de 300 cruzeiros e pensão vitalícia por “serviços prestados ao turismo”. “Mestre Pastinha merece ter uma situação excepcional na Bahia. Trata-se de um grande mestre da nossa cultura popular e deveria ser amparado pelos poderes públicos e pela população. É o guardião de preciosidade da nossa cultura, a capoeira angola”, alertou Jorge Amado.

 

Ainda que não devolvessem sua academia, Pastinha reivindicava reconhecimento. Queria que o governo Luiz Viana Filho o apoiasse no projeto de tornar sua capoeira um referencial para o turismo em Salvador”. Não foi atendido. “Solicitei ao governador um auxílio para restaurar a academia. Até agora, porém, apenas promessas”. O socorro viria de outras partes. Artistas como Moraes Moreira chegaram a realizar shows beneficentes para arrecadar fundos. O próprio Bimba teria feito apresentação em prol de Pastinha. “João Pequeno e João Grande também foram solidários na medida do possível. A verdade é que a maioria dos seus alunos não tinha condições”, explica Frede Abreu.

 

Em 1979, com o esforço particular de mestre Curió, se deu a última tentativa de reerguer a academia. Quase não se destacou o fato nos jornais. “Mestre Pastinha tenta reviver, na miséria, seu passado de glórias”. Não conseguiria atrair muitos freqüentadores, insucesso justificado por dona Romélia. “A academia ainda não tem alunos porque todo mundo que aparece só quer ter aula de graça”, bradou. Por curto período, o Centro Esportivo de Capoeira Angola funcionaria na Rua Gregório de Matos, número 51.

 

As ajudas atenuaram o sofrimento, mas serviram apenas de paliativo. Dona Romélia ainda tentou, de forma frustrada, gravar disco e reeditar livro de Pastinha. Mas a única fonte de renda fixa continuaria sendo seu acarajé, comercializado na porta do Hotel Pelourinho e na entrada da Fonte Nova. Sem tempo para cuidar do companheiro e sem dinheiro para comprar remédios, decidiu internar Pastinha num asilo. O mestre seria levado para o Abrigo Dom Pedro II, carregado pelo amigo e aluno Ângelo Romano, atual comerciante do Pelourinho. “Levei no meu próprio carro”, revela.

 

Asilado, não ficaria em paz. A fama faria com que sua figura continuasse tão cultuada quanto explorada. “Vem gente aqui tirar fotos dele e vender por 700 cruzeiros”, denunciou Romélia. Terminaria, assim, definhando em cima de uma cama, sem dentes, com os olhos revirados e servindo de modelo. Em 13 de novembro de 1981, morre aos 92 anos. Há controvérsias sobre quem teria custeado o enterro no cemitério do Campo Santo. A viúva dizia que foi ela, com o dinheiro do acarajé. Alguns sugerem que foi a prefeitura. Certo é que o grande mestre sacerdote, que fez da roda de capoeira teatro, mostrou sua arte afro-brasileira para os africanos e filosofou com a cultura popular, terminou cego, pobre e famoso. Morreu como mártir, tateando  no escuro.

 

Tradição reinventada

 

Mudanças implementadas por Pastinha condenam a violência e valorizam a ludicidade da tradição afro

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Em preto-e-branco as imagens são ainda mais nostálgicas, revelam passos saudosos de um “bêbado” alucinante, evidenciam a ginga inconfundível de um bailarino, mais que lutador. Na ponta dos pés, Pastinha joga a capoeira que se perdeu no tempo, não existe mais. Os alunos estão reunidos na roda, têm o mesmo figurino, são atores de verdadeira peça teatral, tão artística quanto perigosa. O mestre, porém, tem cuidado, dá balão, projeta o corpo do adversário para o alto, escora para que aterrize no chão com segurança.

 

As gravações em película são de 1949. O filme de Alceu Maynard não tem mais do que 15 minutos, mas é uma das raríssimas gravações em que Pastinha aparece em ação. Ali a brutalidade já havia sido banida das rodas do mestre. O estilo Pastinha é lento, cadenciado, sem que necessariamente seja preciso atingir o adversário. “Tem que fazer que vai e não vai quando menos se espera”, sugeria. Pensou a capoeira para que fosse aceita por todos, sem exceção. “É pra homem, menino e mulher. Só não joga quem não quer”. Na roda em que Pastinha era o mestre, quase tudo não passava de representação, era brincadeira controladamente arriscada.

 

“Repare nos movimentos. O lúdico é que interessa. As alterações deram vazão a um teatro na roda”, observa o pesquisador Frede Abreu, ao examinar a relíquia em vídeo. Abreu se refere às transformações no modelo de praticar a capoeira tradicional, pelas quais Pastinha foi o maior responsável. “Diferente do que muita gente pensa, ele não criou a angola, criou um tipo específico dentro da capoeira, mais condizente com os preceitos tradicionais”, esclarece. De fato, Pastinha é educador da roda, torna elegante e civilizado os modos de jogar.

 

Para tanto foi preciso voltar no tempo, reinventar antiga tradição. Como guardião dos segredos de angola apresentava sua capoeira como original, pura, fruto da experiência africana e escrava no Brasil. Buscou traços primitivos nos rituais religiosos dos candomblés, nas danças dos ancestrais e até nos movimentos dos bichos. “Nessas práticas estariam a essência da capoeira. Com elas teria ganhado movimentos lúdicos e de defesa”, aposta o antropólogo Antônio Liberac. Ao adequar os ritos africanos às regras do jogo, criou modelo único e inovador.

 

Faceta marginal

 

O resgate do passado significou a quebra dos laços com a rua. Pastinha consegue tirar a capoeira da desorganização e termina por romper culturalmente com sua faceta marginal, vinculada ao crime. “Eu sei que tudo isso é mancha suja na história da capoeira. Mas um revólver tem culpa dos crimes que pratica?”, questiona. Eram tempos de arruaça e diversão. “Nas primeiras décadas do século passado, a capoeira estava entre a ordem e a desordem, a violência e a festa”, analisa Adriana Albert Dias, autora de Mandinga, manha e malícia, livro que reconstitui o cotidiano dos capoeiristas entre 1910 e 1925.

 

Quando jovem, tais contradições são vivenciadas de perto pelo próprio Pastinha. Por “vadiagem”, o nome do mestre foi parar algumas vezes nas fichas policiais. Não andava desprevenido. Usava faca de dois cortes na cintura e pequena foice no cabo do berimbau para se proteger das ações da polícia, geralmente iniciadas por pura provocação. “Se estava numa vadiação, num grupo com o berimbau na mão, eles passavam e entendiam de tomar. Aí inflamava, né? Tive algumas vezes a polícia encima de mim. Bati alguma vez em polícia desabusado, mas em defesa de minha moral e do meu corpo”.   

 

A saída seria realizar as rodas em locais fechados, longe dos olhos das autoridades. Pastinha tinha planos audaciosos para fazer da capoeira prática reconhecida e valorizada. Chegou a criar algumas academias de treinamento, ainda sem estrutura. Somente com o convite da Gengibirra pôde realizar seu maior sonho, a fundação do Centro Esportivo de Capoeira Angola (Ceca), em Brotas, mais tarde transferido para o Pelourinho. “Dentro da academia seu ensino foi fundamentado na valorização da cultura afro-brasileira e em princípios éticos bem diferentes do que se aprendia nos tempos dos valentões”, compara o capoeirista e doutor em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Pedro Abib.

 

Hierarquias complexas

 

Pastinha cria regras para o jogo e proíbe golpes traiçoeiros, como o dedo nos olhos, a cabeçada solta e a meia-lua baixa. Elabora hierarquias complexas para que a capoeira seja praticada de forma desportiva. “Deu ao centro mestre de campo, mestre de canto, mestre de bateria, mestre de treinos, contramestre, arquivista...”, enumera Ângelo Decânio Filho, estudioso dos seus manuscritos. “O próprio uniforme preto e amarelo, inspirado nas cores do Ypiranga, representou mudança voltada para os princípios acadêmicos. Mestre Pastinha não consentia que se jogasse descalço e sem camisa em sua academia”, confirma trecho do livro de Liberac. Em 1952, redige-se o primeiro estatuto do Ceca.

 

A contribuição de Pastinha na escritura do regulamento vem por meio de palavras fortes, resumo da ética que propunha para seus discípulos. “Meus irmãos, ao iniciarmos os nossos trabalhos quero fazer sentir a todos os presentes e a quantos venham se integrar a nosso meio que a base fundamental do nosso centro é a boa conduta, educação social, solidariedade humana e sobretudo a prática do bem, não usando a arma poderosa que é a capoeira a não ser em legítima defesa”. Era a única instituição de angola organizada, onde os alunos recebiam diploma e carteira de identificação. À época, a campanha de Pastinha surgiu com tanta força que chegou a criar rivalidade com outras manifestações culturais de mesmo porte, a exemplo da capoeira regional, liderada por Manoel dos Reis Machado, o mestre Bimba.

 

Duelo de titãs

 

Atacaram-se, mas não em sentido pessoal. Bimba e Pastinha jamais se hostilizaram individualmente. Nunca gingaram juntos, nem mesmo se visitaram em toda a existência. Existem registros raros de encontros casuais entre os dois, como no 1º Festival de Capoeira da Bahia, no Ginásio Antônio Balbino, em 1966. Debateram algumas vezes por meio da imprensa, em matérias conduzidas pelo tom do rivalismo. Reportagem da Tribuna da Bahia, publicada no dia 13 de novembro de 1969, fez surgir algumas rusgas. No segundo caderno, a Tribuna intitulou: “Bimba e Pastinha, um duelo de titãs”. Ali argumentaram sobre os estilos de cada um, e fizeram questão de estabelecer diferenças.

 “Capoeira angola é uma dança. Se oficializarem a capoeira será a regional, que se presta para a luta”, defendia Bimba. A resposta vinha em forma de ironia. “Bimba ensina os seus alunos a jogar mais ligeiro, enquanto eu determino aos meus movimentos lentos e manhosos. Capoeira veio de Angola. Regional é um mito. É apenas um nome criado por mestre Bimba, angoleiro como eu”. Com frase escrita na parede da academia, Pastinha também provocava. “Capoeira, só angola. Angola, capoeira-mãe”. “Para Bimba, a capoeira é invenção nacional, brasileira, originária das senzalas do recôncavo. Pastinha finca nas tradições da diáspora africana, dos negros trazidos para a escravidão”, elucida Antônio Liberac.

Fato é que disputaram os espaços culturais e políticos da época. Ambos tornaram a capoeira reconhecida entre as diversas classes sociais, e pleiteavam cada vez mais admiradores. Simpósios e congressos, como o que aconteceu em 1969, no Rio de Janeiro, tentaram unificar os estilos. Em vão. “Mestre Bimba retirou-se antes do término, pelo baixo nível da discussão. Pastinha, por sua vez, se negou a marcar presença”, narra matéria do jornal A Tarde daquele ano. As dissensões entre os dois não passavam disso. “Eram incitados o tempo todo, mas não tinham por que brigar”, concorda Manoel Nascimento Machado, o mestre Nenel, filho de Bimba.

Fala-se, inclusive, numa carta de Pastinha, enviada a Bimba, convidando-o para visitar a academia. O mestre nunca se fez presente, mas teria enviado alguns regionais. “Eles iam vadiar com a gente, sim. Ezequiel, Itapuã, Camisa Roxa, eram todos da capoeira regional”, recorda mestre João Grande, seguidor de Pastinha. Apesar das ponderações, as “alfinetadas” permanecem até hoje, principalmente nas palavras do angoleiro Gildo Lemos Couto, o Gildo Alfinete. “Bimba usou a capoeira para transformá-la numa outra coisa. Como alguém vai roubar sua mulher e você vai gostar?”, polemiza.

Ao esgueirar-se pelos dois ambientes, Ângelo Decânio Filho parece encontrar o cerne da questão. “A discussão se mantém porque Bimba é a face belicosa e guerreira. Pastinha é o exercício da habilidade, onde se mostra ao adversário que pode atingi-lo, mas não o faz”. De fato,  Bimba voa sobre o oponente, tira o corpo do chão em ataque certeiro. Pastinha atua, finge-se bêbado, faz da roda teatro, representa personagem em jogo lento, não menos fulminante. Traz à memória aquelas imagens em que aparece no filme de 1949, com ginga inconfundível, num nostálgico preto-e-branco.

 Alexandre Lyrio-alyrio@correiodabahia.com.br