Registros

1. gravura "Jogar capoeira ou dança da guerra" do pintor Rugendas, publicada em 1835

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Ilustração: Reprodução - Johann Moritz Rugendas. Viagem pitoresca através do Brasil. São Paulo: Livraria Martins, 1940.

 

2. artigo "Capoeira no Terreiro de Mestre Waldemar" de Eunice Catunda, 1952

Texto de Eunice Catunda, em artigo intitulado "Capoeira no Terreiro de Mestre Waldemar", publicado em Fundamentos - Revista de Cultura Moderna, no ano de 1952 em São Paulo (trechos)
"O senso de realização coletiva, própria essência da arte, se revela no tríplice aspecto da capoeira, que é uma fusão de três artes: música, poesia e coreografia. ...O ritual, a tradição a que obedecem os participantes da capoeira, são muito rígidos. O mestre é o conhecedor da tradição. Daí ser ele, também a autoridade máxima. Supervisiona o conjunto todo, determinando a música, o andamento, tirando ou indicando os cantos ou indicando a pessoa que o faça."
"Quando chegamos ao terreiro a capoeira já começara. Dois dançarinos coleavam rentes ao chão, enquanto dois berimbaus e três pandeiros acompanhavam com estranhos ritmos e sons aquela dança magnífica e arrebatadora, de gente combativa e forte. Os dançarinos do momento eram um carregador do mercado de Água dos Meninos e um operário da construção civil. O operário estava todo de branco, sapatos brilhando, camisa alvejando. Era um dos melhores dançarinos. É costume da fina-flor dos capoeiristas o dançar assim, 'de ponto branco' como se costuma dizer, para demonstrar sua perícia. Chegam ao cúmulo da dançar de chapéu e os bailarinos hábeis se gabam de sair da dança sem uma só mancha de terra na roupa, limpos e bem arrumados como se ainda não houvessem entrado em função."
"A dança da capoeira é a representação simbólica de antigas lutas autênticas. Na Capoeira de Angola, os dançarinos volteiam quase rentes ao chão, realizando paradas de braço, em posição horizontal, girando, escorregando como enguias e escapulindo por sob o corpo do adversário. Os golpes são constatados por mesuras e pelas exclamações dos assistentes. Aliás, não fora a precisão daqueles movimentos, muitos dos golpes seriam mortais. Esse é o caso das célebres cabeçadas assestadas contra o peito e cujo impulso é sustado só no derradeiríssimo momento, quando a cabeça de um dos bailarinos já aflorou o corpo do outro. A violência latente nunca se desencadeia e esse extraordinário domínio de paixões mantêm a assistência numa incrível tensão de nervos, empolgando a todos numa espécie de hipnotismo coletivo quase indescritível.
imagebrowser imageSó aqueles que assistiram a uma demonstração de Capoeira de Angola poderão compreender a monstruosa força e controle exigidos para que realize cada um daqueles movimentos, sem que se dê lugar a qualquer agressão, sem que se perca a elegância e a graça felina de cada gesto, absolutamente medido, calculado por uma espécie de instinto, já que os elementos atuantes se acham inteiramente entregues a aquela arte aparentemente tão impulsiva e espontânea."
"Apesar da violência latente, não sobrevêm a hostilidade. Há no meio daquilo tudo imensa fraternidade e júbilo. Verificam-se passes espirituosos de bailarinos brincalhões e sorridentes, a realizar difíceis e perigosíssimos passos e golpes. E entre os assistentes estouram sonoras risadas.... Jamais vi, em danças de conjunto, nacionais ou estrangeiras, tão arrebatadora beleza, aliada a tal rapidez, precisão e força reprimida, dominada por uma inteira disciplina e lucidez."
"Os solistas se alternavam, dando à melodia a característica própria de seu temperamento humano. Umas eram mais vivas, mais espirituosas, enquanto outras eram sonhadoras, singelas. Mas todos os textos profundamente poéticos. 'Lembro-me bem de uma voz que se elevou para cantar a beleza dos saveiros de velas enfunadas, louvando o mar generoso e o vento que os conduz. Descreveu o vento a acumular nuvens para depois dissolvê-las em gotinhas de chuva, sobre a branca vela dos saveiros que embalou. Era a poesia popular que se fazia presente no esplendor típico da arte única que é a Capoeira de Angola. E a tudo isso o coro continuava a responder pela boca de todos os assistentes e participantes: 'Eh! Paraná, eh! Paraná, camará...' enquanto os dançarinos voltejando, girando, desviando os corpos das cabeçadas, rindo alto, aos saltos, elásticos como gatos."

Fonte:
Camille Adorno. A arte da capoeira. Goiânia: Kelps, 1987.
Ilustração:
E. Zolcsak, 2002.

3. "A Bahia de outrora" de Manuel Querino, 1955 Ilustração de Carybé

Cantiga
"Tiririca é faca de cotá,
Jacatimba muleque de sinhá,
Subiava ni fundo di quintá.

Aloanguê, caba de matá
Aloanguê.

Marimbondo, dono de mato
Carrapato, dono de fôia,
Todo mundo bêbê caxaxa,
Negro Angola só leva fama.

Aloanguê, Som Bento tá me chamando,
Aloanguê.

Cachimbêro nã fica sem fogo,
Sinhá veia nã é mai do mundo,
Doença que tem nã é boa,
Nã é cousa de fazê zombaria.

Aloanguê, Som Bento tá me chamando,
Aloanguê.

Pade Inganga fechou corôa
Hade morê;
Parente, não me caba de matá.

Aloanguê, Som Bento tá me chamando,
Aloanguê.
Aloanguê.

Camarada, toma sintido,
Capoêra tem fundamento.

Aloanguê, Som Bento tá me chamando,
Aloanguê, caba de matá.
Aloanguê."
 

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Carybé

Fonte:
Manuel Querino. A Bahia de outrora. 3 ed. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1955 (1a. edição em 1916). Com Ilustração de Carybé p.77 (reprodução).

 

4. "Bahia - Imagens da terra e do povo" de Odorico Tavares, 1961 Ilustração de Carybé

"Com os tocadores ao seu lado o mestre levanta a voz, iniciando o canto. Os jogadores, em número de dois, estão de cócoras, à sua frente. é lenta a toada que o mestre canta, como solista e já os capoeiras acompanham-no em movimentos mais lentos ainda, como cobras que começam a mover-se: olhe o visitante atentamente, como aqueles homens nem ossos tivessem, seus membros parecem que recebem um impulso quase insensível, de dentro para fora. O mestre canta os últimos versos do seu solo e o coro responde, os instrumentos respondem fortes, o ritmo violento, as vozes altas:
Aruandê
ê, ê
Aruandê
Camarado

Já os capoeiras se expandem em gestos, em movimentos, em baile que será sempre surpresa. É dança que é luta: golpes, negaças, rasteiras, numa surpreendente beleza de movimentos. Os homens não se tocam para defesas e ataques que se sucedem em imprevistos de segundos. É um milagre em que a violência de um ataque resulte em outro ataque, em que ninguém se toca, ninguém se fere, ninguém se agride. É combate, é baile que dura horas. Estão suados, mas jamais há o menor ar de cansaço. Pode ser uma criança, pode ser um jovem, pode ser um velho: a resistência é a mesma. No mundo da capoeira não há possibilidade de derrota pelo cansaço físico.
...
Desde os primeiros tempos da escravidão, vindo de Angola, mas como ato de simulação, escondendo, por trás dele, os verdadeiros intuitos dos seus componentes de se adestrarem para a luta, para o que der e vier. Os capoeiras brincando e jogando, nenhuma suspeita poderiam causar aos seus donos. Os negros de Angola já vinham senhores de sua agilidade, de sua força física, postas à prova em mais de uma revolta, em mais de um conflito, em mais de um incidente."

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Carybé

Fonte:
Odorico Tavares. Bahia - Imagens da terra e do povo. 3 ed. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1961. Com Ilustração de Carybé p.181 (reprodução).