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Besouro Mangangá  - zumbidos de resistência 
 

Manuel Henrique, o Besouro Mangangá, morreu jovem, com apenas 24 anos, em 1924, restando ainda dois dos seus principais alunos: Rafael Alves França (Mestre Cobrinha Verde) e Siri de Mangue.

José  Raimundo, pós-graduado em História e Cultura Afro-brasileira, licenciado em Língua e Literatura Inglesa, vice-diretor do Centro Educacional Teodoro Sampaio (Santo Amaro-BA)


Minhas primeiras informações sobre Besouro vieram através de meu pai, Virgílio Silva, um negro bastante trabalhador e inteligente, filho de Salu, dono de uma fazenda chamada “Mucumbe” aqui em Santo Amaro – Bahia. Ele costumava contar algumas histórias sobre o capoeirista que me enchiam de curiosidade e enlevo, principalmente quando me mandava cortar o cabelo na barbearia de Caetano, irmão de Besouro, um senhor de semblante calmo e voz pausada. Esses fatos contribuíram sensivelmente para que eu desde cedo dissipasse minhas dúvidas acerca da existência de seu irmão Besouro. Seu nome era Manoel Henrique Pereira e foi assassinado com uma faca de “ticum”, aos 24 anos, numa verdadeira emboscada. 
 
O processo de desconstrução da imagem do negro é fato bastante visível ao longo dos anos. E Besouro, Manoel Henrique Pereira, não seria uma exceção. Sob o pretexto de apenas abordá-lo como uma entidade mística e não sob uma perspectiva mítica, a história oficial acaba por não incluí-lo como uma expressão legítima de resistência na secular luta dos negros. Essa tentativa de desconstrução se amplia ainda mais quando Besouro é associado a forças demoníacas, principalmente nos momentos em que se esquivava da polícia, sumindo repentinamente por entre os matos e canaviais (os quais conhecia como ninguém), ou por declarar-se filho de Ogum e ter o “corpo fechado”. 
 
É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem. Quanto ao apelido “Besouro Mangangá”, conta-se que surgiu quando, após arrumar mais uma encrenca com a polícia, desapareceu misteriosamente. Atordoado, um policial perguntou para um dos que assistiram à cena: “Você viu pra onde foi aquele negro?” “Vi, sim senhor. Ele virou besouro e saiu voando”. “Mangangá” é um tipo de besouro cuja picada é muito perigosa e às vezes fatal. 
 
Na verdade, existem diversas histórias sobre Besouro as quais misturam ficção e realidade. Uma delas é contada por seu primo e aluno Cobrinha Verde, e diz que “certa feita, sem trabalho, Besouro foi à Usina Colônia (hoje Santa Eliza) em Santo Amaro e conseguiu colocação. Uma semana depois, no dia do pagamento, o patrão, como fazia com os outros empregados, disse-lhe que o salário havia “quebrado” pra São Caetano, isto é, não pagaria coisa alguma. Quem se atrevesse a contestar era surrado e amarrado num tronco durante 24 horas. Besouro, entretanto, esperou que o empregador lhe chamasse e, quando o homem repetiu a célebre frase, foi segurado pelo cavanhaque e forçado a pagar, depois de tremenda surra”. 
 
Uma outra história diz que “certa vez, Besouro obrigou um soldado a beber grande quantidade de cachaça. O fato registrou-se no Largo de Santa Cruz, um dos principais de Santo Amaro. O militar dirigiu-se posteriormente à caserna, comunicando o ocorrido ao comandante do destacamento, Cabo José Costa, o qual designou 10 praças para conduzirem o homem preso, morto ou vivo. Pressentindo a aproximação dos policiais, Besouro recuou do bar e, encostando-se na cruz existente no largo, abriu os braços e disse que não se entregava. Ouviu-se violenta fuzilaria, ficando ele estendido no chão. O cabo José chegou-se e afirmou que o capoeirista estava morto. Besouro então se ergueu, mandou que o comandante levantasse as mãos, ordenou que todos os soldados fossem embora e cantou os seguintes versos: “Lá atiraram na cruz/eu de mim não sei/se acaso fui eu mesmo/ela mesmo me perdoe/Besouro caiu no chão/fez que estava deitado/Polícia se briga/vamos lá pra dentro do mangue/vão brigar com caranguejo/que é bicho que não tem sangue”. 
 
Como podemos observar, Besouro não gostava de policiais e sempre se envolvia em complicações com os milicos e não era raro tomar suas armas e conduzi-los até o quartel. 
 
As brigas eram sucessivas e por muitas vezes Besouro tomou partido dos fracos contra os proprietários de fazendas ou engenhos e policiais. 
 
É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem. Certa vez, Antônio José Diogo, fustigando Besouro com o cipó caboclo, ordenou: “Feche a porteira, nego descarado! Besouro não o obedeceu e revidou a agressão com seu facão. 
 
No entanto, a denúncia que transcrevemos literalmente a seguir, extraída do Arquivo Público de Santo Amaro-BA, mostra-nos a maneira com que “os homens da lei” faziam suas próprias versões para as ocorrências:

“Exmº Sr. Dr. Juiz de Direito

O Promotor Público d’esta Comarca abaixo firmado, usando de suas atribuições e firmado no inquérito policial junto, vem trazer a V. Exª  denúncia contra Manoel Henrique, vulgarmente conhecido por “Besouro”, brazileiro, empregado no Engenho Santo Antônio do Rio Fundo, onde rezidente, pelo fato criminoso seguinte: 
 
No dia 31 de Dezembro de 1921, em terreno do Engenho Santo Antônio do Rio Fundo, no distrito do mesmo nome, o denunciado depois de uma troca de palavras com Antônio José Diogo, que passava pela estrada, investe contra este, armado de um facão, produzindo-lhe os ferimentos graves descritos no corpo de delito, dos quais lhe resultaram a amputação do dedo mínimo da mão direita. 
 
Como d’esse modo, tendo o denunciado praticado o crime previsto no Art. 304 do Código Penal, apresenta a Promotoria esta denúncia para, julgada provada, ser o mesmo punido com a pena do referido artigo. 
 
Assim, P. or. de V. Exª que se proceda a todos os termos para a formação de culpa, inquerindo-se as testemunhas arroladas em dia e hora que forem designados com sciencia d’esta Promotoria e fazendo-se as necessárias intimações: 
 
Testemunhas Rezidência 
José Maria da Paixão Engenho Novo 
Francisco Alves Soares Rio Fundo 
Pedro Antonio Pereira Rio Fundo 
Antônio Joaquim de Oliveira Rio Fundo 
Francisco Florêncio da Silva Rio Fundo 
 
Santo Amaro, 4 de fevereiro de 1922.

Certamente, a verdadeira ocorrência do incidente acima transcrito respaldou-se, como já dissemos, no fato de Antônio Diogo ter ordenado acintosamente a Besouro, com palavras depreciativas, que fizesse algo para ele. Besouro, não obedecendo à ordem, revidou a agressão a seu modo. 
 
Existe uma série de histórias sobre a vida de Besouro. Vejamos mais uma delas sobre as circunstâncias de sua morte. Empregando-se na casa de um rapaz conhecido por Memeu, Besouro foi com ele às vias de fato, sendo então marcado para morrer. Homem influente, o Dr. Zeca mandou pelo próprio Besouro (que não sabia ler nem escrever) uma carta para um seu amigo, administrador da Usina Maracangalha, para que liquidasse o portador. O destinatário com rara frieza mandou que Besouro esperasse a resposta no dia seguinte. Pela manhã, logo cedo, ele foi buscar a resposta, sendo então cercado por cerca de 40 soldados, que imediatamente fizeram fogo, sem contudo atingir o alvo. Um homem, entretanto, conhecido por Eusébio de Quibaca, quando notou que Besouro tentava afastar-se gingando o corpo, aproximou-se sorrateiramente edesferiu-lhe violento golpe com uma faca de ticum. 
 
Manuel Henrique, o Besouro Mangangá, morreu jovem, com apenas 24 anos, em 1924, restando ainda dois dos seus principais alunos: Rafael Alves França (Mestre Cobrinha Verde) e Siri de Mangue. 
 
No Arquivo Público da Prefeitura Municipal de Santo Amaro da Purificação – BA, encontra-se a certidão de óbito de Manoel Henrique Pereira (Besouro), a qual transcrevemos na íntegra:

“Santa Caza da Mizericórdia da Cidade de Santo Amaro, em 5 de Setembro de 1925. 
 
Certidão passada a pedido verbal do Dr. João de Cerqueira e Souza, Promotor Público da Comarca e por determinação do Chefe do Serviço Clínico do Hospital da Mizericórdia e etc. 
 
Certifico que, por determinação do Chefe do Serviço Clínico d’este Hospital da Santa Caza da Mizericórdia, revendo os livros nº 3, linha 16 cito 418, consta o seguinte lançamento: Manoel Henrique, mulato escuro, solteiro, 24 anos, natural de Urupy, rezidente na Uzina Maracangalha, profissão vaqueiro, entrada no dia 8 de Julho de 1924, às 10 e meia hora do dia, fallecendo às 7 horas da noite, de um ferimento perfuro-inciso do abdômen. É o que consta, que para aqui copiei fielmente como n’elle se contem. Eu, Jerônymo Barboza, enfermeiro, que o escrevi e assigno.

Jeronymo Barbosa - Enfermeiro.

Hoje, Besouro é símbolo da Capoeira e não só em território baiano, sobretudo pela bravura e lealdade com que sempre se comportou em relação aos fracos e negros perseguidos pelos fazendeiros e policiais.

“Quando eu morrer me enterre na Lapinha 
Quando eu morrer me enterre na Lapinha 
Calça, culote, paletó, almofadinha (...) 
Adeus Bahia, zum-zum-zum, cordão de ouro, 
Eu vou partir porque mataram meu Besouro” 
(Paulo César Pinheiro).

Além desta homenagem musical de Paulo César Pinheiro e Baden Powel, em “Lapinha”, Besouro foi cantado verdadeiramente em prosa e verso. Jorge Amado, em seu expressivo romance “Mar Morto”, dedica um capítulo deste livro a Besouro:

“Essa cidade de Santo Amaro onde Guma está com o saveiro foi pátria de muito barão do Império, viscondes, condes, marquesas, mas foi também de gente do cais, a pátria de Besouro. Por esse motivo, somente por esse motivo, não é por produzir açúcar, condes, viscondes, barões, marqueses, cachaça, que Santo Amaro é uma cidade amada dos homens do cais. Mas foi ali perto, em Maracangalha, que o cortaram todinho a facão, foi ali que seu sangue correu e ali brilha a sua estrela, clara e grande, quase tão grande como a de Lucas da Feira. Ele virou estrela porque foi um negro valente” (...)

Em termos poéticos ele foi cantado em cordel através dos versos do poeta e compositor também santamarense Antônio Vieira, que publicou “O Encontro de Besouro com o Valentão Doze Homens”. Vejamos alguns trechos deste trabalho: 
 
“Esta é uma história 
De natureza baiana 
Que envolve o recôncavo 
O massapé e a cana 
O engenho, a usina 
O candeeiro de manga 
O carreiro que conduz 
A junta de boi de canga” (...) 
 
“Ela envolve uma cidade 
Bem antiga da Bahia 
Um de seus protagonistas 
A ela é que pertencia 
Me refiro a Santo Amaro 
A cidade de Besouro 
Negro valente danado 
Que não levava desaforo”. 
 
“Dizem que Besouro 
Ainda propôs pra Doze Homens 
Suspenderem a paleja 
Enfrentar juntos os homens 
Botá-los pra correr, 
Mostrar que ‘o couro come’ 
E depois de os vencer 
Lutar de homem pra homem” (...)

(Antônio Vieira – “O Encontro de Besouro e o Valentão Doze Homens”).

Ainda são poucas as manifestações de apreço por parte, até mesmo, de grupos de capoeira da Bahia em relação ao que Besouro representou para a trajetória de luta da resistência negra. Por isso, é de se registrar com enorme satisfação a homenagem feita recentemente em nossa cidade pelo Grupo Forte de Capoeira, com sede em Salvador-BA, quando foram até a Santa Casa da Misericórdia, onde faleceu Manoel Henrique Pereira, e colocaram uma placa em sua homenagem ao som do toque de berimbaus e cânticos característicos, como também  é importante registrar os trabalhos de informação e conscientização desenvolvidos pelos instrutores santamarenses mestre Antônio Lampião, mestre Macaco, a pesquisadora Zilda Paim, a professora Maria Mutti, diretora do NICSA, e o professor Raimundo Artur, que faz um trabalho de resgate histórico-cultural de nossa cidade, dentre outros. 
 
Na oportunidade, sugerimos às entidades culturais de preservação da cultura e história do negro brasileiro, não somente da Bahia, mas também do Brasil, que imprimam um enfoque múltiplo e maior sobre a importância de Manoel Henrique como mais um símbolo do povo negro, para que os “zumbidos de resistência” que trilham o “céu de uma cidade do interior” ecoem também em outros céus, não apenas como um “objeto não identificado”.

Axé, Besouro Mangangá!